Em um momento decisivo para o Brasil, entender o real valor dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) torna-se imperativo não apenas para acadêmicos, mas para toda a sociedade. Este artigo explora os desafios, resultados e perspectivas de um setor que pode moldar o futuro econômico e social do país.
Ao longo das próximas seções, apresentaremos dados atuais, histórias de sucesso e propostas para maximizar o retorno sobre cada real aplicado em ciência, tecnologia e inovação.
Cenário Atual e Contradições
O Brasil vive um cenário de contradições em relação aos investimentos em P&D. Enquanto as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) estaduais ampliam seus orçamentos, universidades federais enfrentam redução de recursos e queda no ranking internacional.
Em 2023, a produção científica nacional sofreu uma retração de 7,2% em comparação ao ano anterior, reflexo direto da falta de verbas para financiamento e da desaceleração em projetos pós-pandemia.
Dados Críticos sobre Investimentos Federais
Desde 2013, os investimentos públicos federais em P&D apresentam trajetória de queda. Em 2015, o país atingiu recorde de 1,34% do PIB em dispêndios no setor, caindo para 1,27% em 2016 e reduzindo-se ainda mais até 2023, quando os recursos foram apenas 76% dos aplicados em 2015.
*Estimativa considerando cortes e reajustes.
Tal desinvestimento impacta diretamente a qualidade da pesquisa, a formação de doutores e a capacidade de competir globalmente.
Protagonismo das FAPs e Desigualdades Regionais
Com orçamentos atrelados à receita tributária estadual, as FAPs ganharam força e, coletivamente, superaram as agências federais como principais financiadoras de CT&I no país.
No entanto, essa descentralização pode exacerbar desigualdades: estados de maior arrecadação atraem mais recursos, enquanto unidades com menor capacidade financeira ficam em desvantagem.
Inovação na Indústria: Uma Luz no Fim do Túnel
Em contrapartida aos cortes acadêmicos, o setor industrial bateu recorde histórico de investimento em inovação, atingindo R$ 34 bilhões em 2024 por meio do programa Nova Indústria Brasil (NIB).
- BNDES: R$ 11,1 bilhões aprovados até novembro, maior valor já registrado;
- FINEP: crescimento de 232,8% nas aprovações em relação a 2023;
- Embrapii: 610 projetos financiados, totalizando R$ 1 bilhão;
- Resultado: salto de 30 posições no ranking global de inovação segundo a UNIDO.
Esse movimento demonstra que, quando existe financiamento estratégico e contínuo, a indústria brasileira pode se afirmar como protagonista mundial.
O Gargalo da Transferência de Tecnologia
Apesar de um arcabouço legal moderno, a integração entre universidades e empresas ainda enfrenta barreiras. Em 2023, apenas 23,8% dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) firmaram novos contratos de licenciamento.
As receitas geradas por licenciamentos caíram de R$ 48 milhões em 2021 para R$ 32 milhões em 2023, evidenciando a necessidade de mecanismos mais eficientes de cooperação.
Exemplos de Sucesso no Agronegócio
O setor agropecuário é o grande case nacional de ligação entre pesquisa e mercado. A Embrapa, referência mundial, gerou em 2024 um lucro social de R$ 107,24 bilhões, com R$ 102,09 bilhões atribuídos diretamente a tecnologias inovadoras.
- Sistema CROPS: monitora riscos de míldio em videiras, reduzindo defensivos agrícolas em vinícolas;
- Cafés Especiais Robustas: projeto em Rondônia que elevou a região a patamares globais de qualidade.
Benefícios Ambientais e Regulamentares
A adesão do Brasil à OCDE, mesmo no cenário mais conservador, trouxe um benefício líquido estimado em R$ 5 bilhões, o que supera o dobro do orçamento anual do Ministério do Meio Ambiente.
Isso reforça que a internacionalização do país pode ser catalisadora de padrões ambientais e de governança mais rígidos e eficientes.
Desafios do Custo-Brasil e Competitividade
O elevado Custo-Brasil, estimado em R$ 1,7 trilhão ao ano (19,5% do PIB), empurra as empresas nacionais a enfrentarem despesas extras que minam sua competitividade.
- Tributação: 25,8% do PIB versus 0,28% na média OCDE;
- Custo logístico: 11,6% do PIB, bem acima da média internacional;
- Infraestrutura e burocracia: fardos que oneram a operação cotidiana.
Enfrentar esses gargalos exige políticas públicas integradas que alinhem incentivos fiscais, simplificação tributária e investimentos em infraestrutura.
Perspectivas para o Futuro
Investir em P&D no Brasil é uma aposta de longo prazo, com retorno multiplicador em setores como indústria, agronegócio e serviços de alto valor agregado.
Para maximizar esse potencial, propomos:
- Integração real entre universidades, centros de pesquisa e empresas de todos os portes;
- Ampliação e estabilidade de recursos federais e estaduais destinados a P&D;
- Incentivos fiscais claros e ágeis para projetos inovadores;
- Redução do Custo-Brasil por meio de reformas tributárias e logísticas.
Ao adotar uma visão estratégica e colaborativa, o Brasil poderá transformar cada real investido em P&D em progresso social, ambiental e econômico.
Este é o momento de agir de forma coordenada, integrando talento, recursos e visão de futuro para que a pesquisa e desenvolvimento deixem de ser custos e se tornem o maior ativo do país.
Referências
- https://inova.coop.br/indica/noticia/indica-noticias/panorama-do-investimento-em-pesquisa-brasil-vive-cenario-de-contrastes-no-apoio-a-producao-cientifica-e-academica
- https://revistapesquisa.fapesp.br/ciclo-interrompido/
- https://www.ibge.gov.br/estatisticas/todos-os-produtos-estatisticas.html
- https://abes.org.br/dados-do-setor/
- https://www.fi-groupbr.com/a-importancia-dos-incentivos-fiscais-em-pd-para-o-desenvolvimento-de-paises-na-america-latina/
- https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/nib-completa-1-ano-com-r-3-4-trilhoes-de-investimentos-e-crescimento-industrial







